quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CULTURA E ENSINO

Recebi, recentemente, um e-mail com um texto escrito por José Geraldo de Araújo Castro, intitulado Cultura e Ensino. Um texto lúcido, corajoso, saudosista e que expressa os sentimentos de alguém que acompanha o rápido processo de decadência e desestruturação do ensino. Tem a abordagem mais voltada para Dionísio, terra do escritor, mas é o retrato nacional pelo que passa o atual quadro de ensino no Brasil. E uma bela introdução que explana a cultura num contexto histórico geral.
Confesso que poderia ter poupado nos elogios ao final do texto, mas o publiquei assim mesmo, na íntegra, como ele me enviou.
Agradeço sua participação e deixo o espaço aberto para futuras publicações.


CULTURA E ENSINO
(José Geraldo de Araújo Castro - Agosto de 2011)

SIR LAWRENCE ALMA-TADEMA - Prosa
Óleo sobre tela - 35,5 x 24,2 - 1879

O ensino e a cultura são um binômio difícil de caminharem juntos em qualquer lugar do mundo. Em alguns países estas deficiências são menos sentidas que em outros. Os primeiros registros que temos notícia da arte e cultura são as manifestações rupestres encontradas em várias partes do mundo. O homem sentia os primeiros desejos de manifestar sua impressão do mundo em que vivia. Consequentemente queria assim exprimir naquelas pinturas a beleza primitiva que o cercava. Com o advento dos primeiro impérios, sensibilidade de alguns governantes e a ambição de outros para adquirir obras trabalhadas com habilidade, conhecimento e virtuosismo, estabeleceram-se os parâmetros para a importância das artes. Houve até aqueles que financiaram e mantiveram reunidos artistas das mais variadas matizes das artes plásticas para ampliar seu acervo particular. Alguns povos com milênios de história deixaram para a humanidade monumentos, pinturas e trabalhos dos mais diversos enfoques, que constituem obras-primas de inigualável valor. Outros mais novos, conseguiram traçar com habilidade, virtuosismo e muita dedicação,  a construção e preservação de sua própria trajetória nesse campo, com igual conhecimento e interesse.  A todos, novos e antigos povos, que possuíram ou possuem a capacidade de construir esse importante acervo, a humanidade reverencia, encanta, visita e enaltece pelo diferencial de valores que preservam e espelham.
Com o ensino, os valores mudam. Na antiguidade, nenhum governante conseguiu estabelecer um sistema de ensino para alfabetizar seus povos. Somente as classes abastadas podiam oferecer instrução aos membros da família, através de velhos sábios detentores do conhecimento e da educação social. O povo, este, ficava relegado a própria ignorância, por total desinteresse dos governos constituídos. Na idade média, os mosteiros e seus monges passaram a guardiões do saber, com seus papiros e pergaminhos. Surgiram as primeiras universidades. Mas somente a nobreza tinha acesso a ela. O povo e o conhecimento viviam em mundos antagônicos. O rei governava soberano para todos, o conhecimento direcionado para alguns iluminados.

Guttemberg e a imprensa, em uma litografia da época.

Depois de Johannes Guttenberg, tudo mudou. As primeiras obras começaram a ser impressas. O desejo de saber se espalhou. A curiosidade em descobrir um mundo novo aumentou. Os governos tiveram que adaptar aos anseios dos novos tempos. As escolas tornaram-se necessárias. O conhecimento estava agora ao alcance de todos.
No Brasil, a história não foi diferente. Ainda Colônia, havia algumas escolas administradas por algumas congregações religiosas que aqui se estabeleceram. Depois da elevação do Brasil a reino unido ao de Portugal, as coisas começaram a mudar nesse campo. Surgiram as primeiras escolas e faculdades criadas pelo império. Mesmo assim, somente a elite tinha vez. Somente no inicio do século vinte, houve de fato uma política pública para democratizar o ensino. Alguns estados saíram na frente.
Minas, com a mudança da capital, no final do século dezenove, sentiu na obrigação de expandir o ensino público no estado. É bem verdade que tudo começou de forma tímida. Mas começou.

Grupo Estadual Dr Gomes Lima, uma das
primeiras escolas públicas do estado de Minas Gerais.

Nesta época, um pequeno distrito, chamado Dionísio, da comarca de São Domingos do Prata, teve a primazia de receber uma das primeiras escolas públicas do Estado. Cidades e comarcas ainda não haviam conseguido tão significativa conquista, alcançada por este pequeno lugar, perdido entre a Mata Atlântica do leste mineiro. Entretanto, esta escola conhecida e admirada pela qualidade de seu ensino e do sucesso de seus alunos, quando daqui saíam, para tentar novas oportunidades nos mais diversos cursos em que postulavam fora de suas fronteiras, foi na década de 90 municipalizada. Interesses escusos de uma administração tacanha, sem escrúpulo, ignorante e sem a menor noção de sua relevância no contexto de nossa comunidade mudaram o rumo desta escola. O ensino público tão criticado nos dias correntes, era ministrado aqui com competência e seriedade. De fato, era um ensino de resultado, no bom sentido da expressão; e não desse que vimos hoje, meramente de resultado estatístico, para satisfazer a vaidade dos políticos e anestesiar a consciência coletiva. A experiência centenária do Estado na área da educação, colocada no alvorecer do nosso sistema de ensino, ao dispor desta população, foi jogada na lata de lixo despreocupadamente, sem avaliar o prejuízo educacional a ser creditado às gerações futuras inapelavelmente. Saudosa escola, pobres crianças, incerto futuro.

Antiga comemoração de 7 de setembro, em Dionísio.

Com a chegada da escola, a cultura veio junto.  Foram seguramente as artes cênicas, as primeiras que aqui aportaram. Ainda com lamparinas, lampiões e candeeiros as primeiras peças teatrais começaram a ser encenadas na escola. Começava assim vicejar a cultura por aqui.
No inicio da década de 20 o distrito recebeu água encanada e no final da década, precisamente em 28, a luz elétrica. Com tantas melhorias a comunidade se uniu no início dos anos 30 e, com recursos próprios, comprou uma antiga casa, na praça da matriz, para funcionar ali o grupo de teatro. Ali, por muitos anos a comunidade se deliciou com as peças levadas naquela que foi sua maior e única casa de espetáculo.


Dionísio, 1948, época da sua emancipação.
Vista da Rua Dr José Mateus de Vasconcelos,
tomada da Praça São Sebastião.

Dionísio, numa fotografia do início dos anos 80.

Com a emancipação do município em 48, generosamente o grupo de teatro doou a velha casa para que o município tivesse sua sede. Entretanto, os anos se passaram e os mandatos também se sucederam e não houve nenhum administrador que entendeu, enxergou ou tivesse a mínima sensibilidade para devolver à comunidade esta tão sonhada e importante dívida cultural. A velha tradição e o amor às artes cênicas sucumbiram ao desinteresse de mandatários que não perceberam a importância desta rica cultura em nosso meio. Iniciativas isoladas tentaram ainda, levar, bem depois, no salão paroquial, várias peças na expectativa de não deixar fenecer a tradição. As dificuldades eram inúmeras para o sucesso desta empreitada. Não bastava a dedicação de um grupo de pessoas entusiasmadas com o projeto. Faltavam recursos, o salão foi vendido, não havia incentivos, o teatro havia saído de cena. Como nuvens negras que surgiam no horizonte, a ignorância chegava para envolver de forma definitiva toda a comunidade. A tradição havia morrido. Pena que a lente obtusa dos governantes não pode enxergar e insiste em não ver, ainda hoje, que o teatro além de diversão,  boa dicção e desembaraço no convívio social para quem participa, é disciplina e cultura.

Apresentação da peça "A Canção da Primavera",
de Aníbal Matos - 1977

Apresentação da peça "D. Xepa" - 1978
Grupo Elo de Teatro, em Dionísio.
Final da década de 70 e início da década de 80.

Todavia, a arte e o dom, na maioria das vezes, não dependem de administradores e nem de mandatos. O dom é um valor único em si mesmo. E assim, outra arte aportou por aqui, muito tempo depois. A arte plástica. Assim, José do Rosário começou a sua arte para nos encantar. Suas infindáveis telas falam por si mesmas. Hoje, seguramente ele transcende a fronteira de nossa cidade e estado. O Zé, hoje, é um artista de projeção nacional devido ao seu formidável trabalho. Trabalho que evoluiu ao longo dos anos, amparado pela sua já longa experiência, estudo e dedicação. O Zé nos orgulha pela seriedade e competência. São inúmeros os contatos com companheiros de pincel do Brasil e do exterior. Com freqüência, a convite deles, é intimado a abandonar sua costumeira modéstia para opinar sobre seus trabalhos. Isso traduz com clareza a relevância e importância deste peculiar artista.         


Festa de Nossa Senhora do Rosário, Dionísio.
Tempos atuais.

Agora este Blog, com seu número expressivo de visitantes, vem confirmar o interesse, a inquestionável beleza e sutileza exibida em suas telas e textos. O Zé engrandece, pela estética apurada de sua arte, empunhando com seu talento, a bandeira desta cidade mundo afora. Sua gente, reconhecidamente, admira-o e lhe agradece.


José Geraldo de Araújo Castro é mineiro da cidade
de Dionísio. Tem na escrita um passatempo
sério e consciencioso.
Espero que se torne um exemplo.

domingo, 25 de setembro de 2011

CRIANÇA E ARTE: SEU FILHO É UM ARTISTA?

UGO DE CESARE - O filho do artista - Óleo sobre tela - 70 x 50

Muitas vezes sou questionado por alguns preocupados pais, com respeito a certas habilidades de seus filhos. Todos são curiosos em saber se podem estar com um “Picasso” dentro de casa e se há alguma maneira para reconhecer isso. Acredito que todos os profissionais que lidam com arte já tenham ouvido tais queixas: “ele não pára de desenhar, risca todas as paredes e os cadernos enchem de um dia para o outro...” De fato, alguns indicadores podem dar sinais que a criança tenha ou não, uma “veia” artística. Evidente que daí a se tornar um Picasso, há um longo caminho.


DAVIDSON KNOWLES - Aquarelista à janela
Óleo sobre tela - 35 x 50 - 1895

HENRIQUE POUSÃO - Esperando o sucesso
Óleo sobre tela - 1882

Já falei algo em uma matéria passada, mas é bom relembrar certos dados. Todas as crianças gostam de desenhar, umas mais que outras, mas todas são atraídas por isso. O desenho é uma ferramenta importante para expressarem seu mundo interior, como vêem as coisas, seus sentimentos e expectativas em relação à vida. E até serem alfabetizadas, esse pode ser o caminho mais sincero para se expressarem. Uma vez de posse do mundo das letras, muitas delas passam a escrever histórias, compor textos e narrativas que exprimem seu universo por uma outra maneira de expressão. Grande parte delas deixa de desenhar a partir dessa etapa, ou pelo menos, diminui a intensidade dos desenhos. O que não acontece, porém, com os “artistas precoces”. Mesmo alfabetizadas, as crianças com inclinação para as artes ainda continuam com a prática do desenho. Muitas se sentem tentadas a experimentar técnicas diferentes e novos temas.

JOHANN MARI TEN KATE
Um artista descansando de seu pincel
Óleo sobre painel - 33,5 x 44

Reconhecendo que seu filho tenha mesmo certas habilidades especiais para as artes, o melhor que se pode fazer para ajudá-lo é sair do caminho. Dê liberdade para que ele descubra com as próprias experiências, aquilo que mais gosta de fazer. Não induza seu processo criativo, dizendo para fazer isso ou aquilo e jamais desenhe para ele colorir. Reconheça suas evoluções, mas não elogie em excesso. Ele precisa de autocrítica para saber se está evoluindo ou não. Não fique ostentando os avanços artísticos de seu filho com os amigos, pelo menos na frente dele. Muitos podem se tornar tímidos por causa disso e terem suas habilidades retraídas. Por fim, essa dica de Thomas Hoving* é mais que preciosa: “Quando a criança souber que sabe pintar ou desenhar qualquer coisa sem que o fato se torne um grande acontecimento, está na hora de pedir aquela valiosa opinião de um artista profissional ou de um professor capacitado para isso”.

AURÉLIO DE FIGUEIREDO - Menina ao piano
Óleo sobre tela - 60 x 90 - Coleção Fadel

Seguem abaixo, mais 6 dicas muito importantes de Thomas Hoving, para aprender a detectar a genialidade artística de seu filho:

. Interesse, quase obsessão, por desenhar ou pintar da maneira mais realista possível. Enquanto as outras crianças se divertem com suas pinturas de maneira deliciosamente livre, a criança de real talento se esforçará por fazer desenhos que tentem captar a realidade do assunto.
. Muitas vezes a criança expressará frustração devido a incapacidade de acertar. Mas, invariavelmente, a obra vai ficando cada vez mais característica, às vezes só depois de dezenas e dezenas de desenhos prontos. Mesmo que as obras não sejam esforços “realistas mágicos”, você verá quanta atenção essa criança dará ao registro visual de detalhes específicos. Não raro, embora o assunto não seja tão real, pequenos detalhes serão quase de uma veracidade chocante com relação a vida.
. Um dos sinais de talento é que os olhos da criança bem dotada correrão com uma velocidade vertiginosa do assunto para o desenho ou pintura.
. A criança prodígio às vezes conseguirá desenhar com muita rapidez e produzir uma semelhança com o assunto sem se dar ao trabalho de olhar muito para ele.
. A criança talentosa vai rapidamente experimentar todos os materiais artísticos à mão e tornar-se um chato que exige cada vez mais. Não deixe de lhe dar tudo, de aquarela à tinta acrílica.
. A criança insistirá em criar obras com enredo.

* Thomas Hoving foi diretor do Museu Metropolitano
de Nova York por 10 anos, entre 1967 e 1977.
Já publicou diversos livros de arte, desde 1979.

LUIGI BECHI - Lendo notícias no estúdio do artista
Óleo sobre tela - 143 x 103

sábado, 24 de setembro de 2011

IMAGENS E PALAVRAS

Mais algumas belas imagens
e ótimos pensamentos ligados
à primavera e os seus mais
sofisticados produtos: as flores.

GERARD VAN SPAENDONCK
Bouquet de tulipas, rosas e outras flores
Óleo sobre mármore - 50 x 38,1

"Até uma rosa pode nos ferir.
Tudo depende da maneira como dela
nos aproximamos".
Saint-Exupéry

GEORGIUS JACOBUS JOHANNES VAN OS
Arranjo sobre vaso de terracota
Óleo sobre painel - 71 x 58

"A arte é uma flor nascida
no caminho da nossa vida,
e que se desenvolve para suavizá-la".
Arhur Schopenhauer

TOM BROWNING - Chegando a primavera
Óleo sobre tela - 76,2 x 101,6

"Não corra atrás das borboletas;
plante uma flor em seu jardim
e todas as borboletas virão até ela".
D. Elhers

ALEXANDRE REIDER - Mantiqueira
Óleo sobre tela - 100 x 100

"E é nisto que  se resume o sofrimento:
cai a flor, e deixa
o perfume ao vento".
Cecília Meireles

LOUIS-MARIE LEMAIRE - Garota colhendo flores
Óleo sobre tela - 46,5 x 55

"Não sou sempre flor.
Às vezes espinho me define tão melhor.
Mas só espeto os dedos de
quem acha que me tem nas mãos".
Marla de Queiroz

MIKE SMITH - Hollyhocks
Óleo sobre tela - 91 x 53

"Se o amor cabe numa só flor,
então é infinito".
Antônio Porchia

VALERY SEMENOV - Peônias
Óleo sobre tela - 73,66 x 63,5

"Onde estiver,
seja lá quem for, tenha fé,
porque até no lixão nasce flor..."
Racionais MC's

MÁRIO MARIANO - Floristas
Óleo sobre tela

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

BARBARA EDIDIN

BARBARA EDIDIN - I remember april
Lápis sobre papel - 45,72 x 35,56


Não bastasse o resultado incrível do trabalho de Barbara Edidin, o que mais impressiona mesmo é com que técnica ela o realiza: lápis de cor. Para quem trabalha com arte, sabe o quanto parece ser restrito o uso desse meio. E, no entanto, esqueceram de dizer os limites a essa artista. O realismo que emana de suas composições é algo surpreendente.

BARBARA EDIDIN - Have and have nots
Lápis sobre papel - 78,74 x 48,26

Barbara gosta de frisar que seu trabalho é um elogio à abundância, no seu sentido mais opulento e rico. E o resultado acaba sempre bastante refinado e de extremo bom gosto. Ela cria composições hisperrealistas de naturezas mortas com tanta desenvoltura, que a primeira observada nos deixa sérias dúvidas sobre a utilização de sua técnica.

BARBARA EDIDIN - Plain and simple
Lápis sobre papel - 66 x 45,72

Nascida em Chicago, Estados Unidos, em 1952, formou-se pelas Universidades do Norte do Arizona e do Estado do Arizona, além de passar pelo Edidin Kansas City Art Institute.
Como ela gosta de afirmar, “seus temas são humildes”, porém realizados com tanta maestria técnica, que se tornam absolutamente complexos. À primeira vista nos parecem até algo abstrato, depois, os olhos vão identificando nitidamente as formas, e ao final de algum tempo é impossível não se perguntar como se fez aquele trabalho. A intenção dela é exatamente essa, criar uma ponte direta da abstração com o realismo na sua forma mais apurada. Obviamente a técnica é um ponto determinante em seu trabalho, mas para ela, muito mais que ser reconhecida pelo domínio técnico de seu trabalho, é que as pessoas possam reconhecer neles as suas manifestações interiores mais puras.

BARBARA EDIDIN - Sweet William
Lápis sobre papel - 58,42 x 40,64

Evidentemente que cada obra leva um bom tempo em sua execução, mas, o resultado já lhe rendeu premiações em diversas partes do mundo e o respeito mais que merecido, num setor que é predominantemente masculino, o artístico. Não só as flores recebem veracidade na representação de suas texturas e efeitos, mas também toda prataria, vidros, tecidos e todo tipo de superfície ali contida.

BARBARA EDIDIN - Strawberries and cream
Lápis sobre papel - 88,9 x 58,42

“Seus trabalhos são uma janela para um mundo de profunda exuberância e uma visão de abundância”.

BARBARA EDIDIN - Windfall
Lápis sobre papel - 85 x 71,12


Para saber mais


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

É CHEGADA A PRIMAVERA

GILBERTO GERALDO - Rosas e porcelana
Óleo sobre tela - 1999

GILBERTO GERALDO - Rosas e porcelana
Detalhe

Apesar de a paisagem já estar florida faz um bom tempo, oficialmente começa hoje a nova temporada da primavera. É tempo de muita cor e de ver a paisagem mudando seus tons de terra para os primeiros brotos que chegam. Momentos de vários artistas explorarem, ainda mais, as novas opções de arranjo que se oferecem.
Nos próximos 30 dias, estarei mostrando alguns artistas que trazem nas flores uma parcela importante na composição de seus temas. Vamos abrindo a estação com essas imagens enviadas pelo Gilberto Geraldo.

GILBERTO GERALDO - Girassóis
Óleo sobre tela - 1998

GILBERTO GERALDO - Arranjo
Óleo sobre tela

GILBERTO GERALDO - Rosas em vaso oriental
Óleo sobre tela

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

PAVEL CHISTYAKOV

ILYA REPIN - Retrato do pintor Pavel Chistyakov
Óleo sobre tela - 87 x 67 - 1878
Galeria Tretyakov

Existem dados mais abrangentes sobre um artista quando o mesmo tem uma grande produção, e essa passa a ser alvo da cobiça de colecionadores e instituições. Se a obra produzida por ele possuir uma significativa importância sobre o movimento artístico no período em que foi executada, aí então os dados se somam naturalmente, e a biografia de tal artista torna-se mais rica, sincera e justa. Pelo fato de não ter produzido tantas obras, e as que existem estarem em instituições reservadas e coleções particulares restritas, falar sobre Chistyakov não é tarefa muito fácil. Altruísta ao extremo, dedicado acima de tudo com o ensino da arte, estava mais preocupado em formar seus alunos e discípulos, do que necessariamente fazer sua própria produção, tanto que encerrou todo o conjunto de obras, a um pequeno número, ainda que de excelente qualidade. Entender os movimentos para sua estratégia de ação tem a ver com o espírito de nacionalismo e o desejo de um grupo reservado de grandes artistas, em desenvolverem meios que privilegiassem a formação de uma arte russa coesa e com características próprias. Essa espécie de descontentamento com o que via está ligada diretamente com os fatos que se antecederam, até então, no cenário artístico do país.

PAVEL CHISTYAKOV - Patriarca Hermógenes recusa a abençoar os poloneses
Óleo sobre tela - 1860

Quando Pedro, o Grande, chegou ao poder, cerca de um século antes de Chistyakov, as artes russas sofreram uma mudança radical. Havia muitos sonhos e boas intenções em jogo, e para colocar a Rússia no patamar artístico em que estavam as grandes nações da Europa, o propósito de modernizar o país parecia ser mesmo o caminho mais sólido. Atrair artistas estrangeiros para lá, adquirir obras de arte do ocidente, bem como enviar jovens e talentosos artistas para estudarem nos grandes centros europeus, foram as providências mais imediatas tomadas nessa nova proposta do país. E elas surtiram um rápido efeito! Logo, a apurada técnica apreendida pelos estudos dos jovens, em seus dedicados anos no exterior, capacitaram a Rússia e a deixaram em igualdade com o que se produzia fora de suas terras.

PAVEL CHISTYAKOV - Mendigo romano
Óleo sobre tela - 72 x 62 - 1879

PAVEL CHISTYAKOV - Boiardo - 1876

Com o passar dos anos, porém, um certo conflito tomava força entre as escolas e instituições russas, bem como entre alguns grupos de artistas. Havia os que insistiam em defender uma cultura ortodoxa eslava e os que se abriam às influências e movimentos adquiridos nos períodos de intercâmbio. Uma mudança urgente se fazia necessária: romper contra um sistema inerte de academismo, já desgastado pelo passar dos anos. Exatamente à partir da segunda metade do século XIX, entram em cena célebres figuras que abraçaram a idéia de formar uma nova proposta na arte russa. Pavel Petrovich Chistyakov era uma delas.

PAVEL CHISTYAKOV - Jovem à janela
Óleo sobre tela - 52 x 99,8 - 1864

Chistyakov havia chegado a uma conclusão que definiu bastante as suas estratégias de ação: era preciso preparar melhor o artista comum, tornar altamente profissionais aqueles que não conseguiam ser agraciados com os privilégios de bolsas no exterior. Precisava fazer isso de uma maneira que unisse tudo que aprendeu nas escolas de Paris e Roma, com a expectativa que pairava coletiva no ar, de fazer uma “grande arte” russa. Combinando os mais rigorosos métodos científicos para a execução do trabalho, com a percepção direta da natureza, Chistyakov criou assim o seu método pedagógico, e se tornou por isso, um dos pilares do grande movimento realista russo ocorrido naquela época.

PAVEL CHISTYAKOV - Garota romana
Óleo sobre tela

PAVEL CHISTYAKOV - Estudo de nu

Durante quase todo o século XIX, o Romantismo, Naturalismo, Realismo e Simbolismo fizeram uma espécie de simbiose na arte russa. Tinham suas peculiaridades, mas se somavam fertilizando uns aos outros. Importante ressaltar que só com a prática desses novos movimentos, houve uma significante flexibilização da arte neoclássica que reinava no país, desde os incentivos iniciados por Pedro, o Grande. Os ventos libertários da Revolução Francesa e o descontentamento das classes inferiores inspiravam os novos temas para a “grande arte” desejada como mudança. A crua realidade de servos e camponeses, aliada a um certo bucolismo representado nas cenas domésticas das classes burguesas, contribuem para chamar a atenção da grandiosidade do país, da sua majestosa geografia, infinda, sem limites. Todos os tipos humanos ali viventes, bem como seus ricos costumes locais, levaram naturalmente o retrato e a paisagem a adquirirem ênfases mais objetivas, diretas, realistas. Mas a Rússia já não era mais uma jovem nação, por isso não se podia esquecer os temas históricos e seus importantes personagens, os boiardos, a mitologia e todo credo popular. Todos tiveram espaço nessa nova onda de interpretação na visão dos artistas.

PAVEL CHISTYAKOV
Sofia Vitovtovna puxa o cinto do príncipe Vasilii Kosoi, em seu casamento
Óleo sobre tela - 1861

Chistyakov conduzia assim sua missão, ensinar e imbuir na cabeça de seus alunos e discípulos, a criação de uma “grande arte” russa. Dedicou tanto ao ensino que não sobrou tempo para produzir seu próprio trabalho, mas será sempre conhecido na história russa como um professor de grandes artistas. Haverá prêmio maior para um educador, colher os frutos de seu trabalho? Entre seus alunos, formados em diferentes períodos, estão mestres como Repin, Polenov, Surikov, Vasnetsov, Savinski, Serov, Vrubel, Grabar, Kardovsky, Ryabushkin, Borisov-Musatov, Losev, E. Polenova, Varvara Baruzdina, N. Samokish e outros. Hoje, alguns desses geniais artistas dão nome às maiores instituições do país, como a Academia Ilya Repin, em São Petersburgo, e ao Instituto Surikov de Moscou. No mais, Chistyakov possuía uma vida discreta. Casou-se com sua estudante Vera Meyer, filha de Yegor Meyer. Esse grande artista russo, mestre dos mestres, nascido em 1832, na cidade de Prudy, viveu durante um bom tempo em Tsarskoye Selo, entre 1876 e 1919. Faleceu na cidade de Detskoe Selo, em 1919 e está sepultado no cemitério Kazan.

PAVEL CHISTYAKOV - Rapaz camponês

A história da arte russa desse período é incrivelmente complexa e rica. Motivos não faltam para a composição de muitas outras matérias. Oxalá novos dados e pesquisas venham nos proporcionar outras grandes viagens.
Agradecimento especial ao Gilberto Geraldo pela dica da matéria, por alguns dados e também algumas imagens.


*****

Trabalhos de alguns alunos de Chistyakov,
que vieram a se tornar mestres russos.

ILYA REPIN - A resposta dos Cossacos Zaporogos ao sultão da Turquia
Óleo sobre tela - 203 x 358
Museu Russo, São Petersburgo

VASILIY POLENOV - Outono dourado
Óleo sobre tela - 1893

VASILIY SURIKOV - Yermak conquistando a Sibéria
Óleo sobre tela - 1895

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A PAISAGEM EM MINAS

MAURO FERREIRA - Verdes mineiros
Óleo sobre tela - 16 x 24

Tentei fazer um apanhado da arte paisagística em Minas Gerais. O texto que se segue serve apenas com uma introdução ao assunto, uma vez que é vasto e ainda sem um registro sistemático que possa se transformar em uma fonte de pesquisa confiável. Importante ressaltar que todas as referências que utilizei nasceram também assim, de fontes variadas, das quais seus autores galgaram também um longo trajeto pela pesquisa em fontes escassas. Durante todo o desenvolver desse texto, se tornou impossível não estar comentando assuntos de interesse nacional, uma vez que todos os movimentos importantes acontecidos em nossa arte, tiveram uma abrangência cultural mais globalizada, e os seus protagonistas também estavam envolvidos em vários ambientes do país.

CLÁUDIO VINÍCIUS - Beira de rio
Óleo sobre tela - 30 x 40



A paisagem mineira é incrivelmente diversificada e rica, com ambientes que vão desde a mais densa mata atlântica, até campos de cerrado e regiões bem agrestes, no Vale do Jequitinhonha. Cadeias de montanhas importantes, como as da Mantiqueira, Espinhaço e Canastra, diversificam ainda mais esse cenário. Na literatura, nosso ambiente se imortalizou em obras como “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa, e o retrato urbano começou a ser montado nas muitas observações minuciosas de Carlos Drumond de Andrade. Mas é especialmente para as artes plásticas, a grande contribuição que o cenário mineiro emprestou em obras.

JOÃO BOSCO CAMPOS - Garimpo
Óleo sobre tela - 50 x 70 - 1991

ANTÔNIO GOMIDE - Procissão
Aquarela - 20 x 30 - 1958

Quaisquer que sejam as tentativas de falar sobre a história do paisagismo em Minas Gerais, nenhuma delas poderá isentar as muitas contribuições que fizeram grandes artistas mineiros no cenário da pintura brasileira. Guignard e Edgar Walter encabeçam uma lista das mais variadas e de grandes qualidades. Voltar um pouco atrás no tempo é primordial para entender como se formaram os primeiros passos e as trilhas pelas quais eles puderam se conduzir.

YARA TUPINAMBÁ - Mata do Parque Rio Doce
80 x 100 - 2004

Não é tarefa fácil refazer, hoje, os caminhos percorridos por nossos antecessores, uma vez que a memória artística nos primórdios da história do Brasil, carece de fontes confiáveis de pesquisa. Só agora, nas últimas décadas, alguns estudos mais sérios e algumas ótimas publicações, puderam lançar uma luz no entendimento dos nossos primeiros momentos histórico-culturais. Registros como “Pintores Paisagistas”, de Ruth Sprung Tarasantchi, "Revelando um acervo - Coleção Brasiliana", organizado por Carlos Martins e “Expedição Langsdorff”, das Edições Alumbramento, são exemplos que deveriam se transformar em modelos de resgate da nossa memória nacional. Oxalá sejam seguidos por muitos.


ELIAS LYON - Procissão em Ouro Preto
Óleo sobre tela

As poucas fontes de referências sobre o paisagismo na pintura mineira começaram a ganhar volume e expressão somente nos finais do século XIX. Mais no início do século, antes da chegada da família real no Brasil, existia por aqui uma arte colonial sem muitos representantes famosos na pintura, exceto para as pinturas religiosas, ficando a cargo das construções católicas, o maior legado do patrimônio daquele período. Aleijadinho é o maior representante mineiro do Brasil colônia, e um dos maiores nomes que a arte brasileira já teve. Embora morasse em Minas e tenha todo o seu conjunto de obra exclusivamente feito aqui, viveu num período em que a igreja era o maior mecenas, e toda sua produção foi direcionada para alimentar os fins de sua patrocinadora. A paisagem ainda era um adereço da composição, e Minas parece não ter tido grande influência sobre a temática em sua produção.


JOSÉ RICARDO - Pastando
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2011

MILTON PASSOS - Vista do Rosário
Óleo sobre tela - 40 x 50 - 2009

Foi um processo lento, de mais de um século, ver o tema “paisagem” deixar os fundos das composições e tornar o tema principal, tanto na Europa, quanto em qualquer outra parte onde isso tenha ocorrido. Para o Brasil em especial, a Expedição Francesa financiada pela família real, foi quem mais contribuiu para alargar os horizontes nesse sentido. Deve-se muito aos esforços do Conde de Barca, o sucesso dessa expedição. Extasiados pela beleza intacta e exuberante de um país ainda recente, vários registros feitos pelos artistas de tal expedição se transformaram nos mais valiosos apontamentos da pintura brasileira naquele período. Debret é o nome mais forte dentre os artistas que por aqui estiveram. Mas, um século antes dessa expedição, Franz Post veio a convite de Maurício de Nassau, e é certo que tenha feito os registros mais valiosos do Brasil em seus primeiros passos como nação colonizada.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - Cidade Imperial de Ouro Preto, detalhe
Aquarela e tinta nanquim - 25,5 x 36,5 - 1824

Uma outra expedição, a Expedição Langsdorff, assim chamada por ter sido realizada com a iniciativa de Grigory Ivanovitch Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, foi realizada entre 1821 e 1829. Ele contratou botânicos, astrônomos, navegadores e, em especial, os artistas Rugendas, Adrien Taunay e Florence, que se embrenharam Brasil adentro e fizeram pesquisas inéditas por aqui. Todo o material iconográfico, colhido em tais andanças, permanecia desaparecido, desde 1829, vindo a serem descobertos somente em 1930, em porões do Museu do Jardim Botânico de São Petersburgo, na Rússia, quando esta ainda se chamava Leningrado. Apenas essa expedição já é material suficiente para uma outra extensa matéria.

JOHANN MORITZ RUGENDAS - São João del Rey
Aquarela e nanquim - 25 x 35 - 1824

JOHANN MORITZ RUGENDAS
Convento de N S da Conceição, na Serra do Caraça, Província de Minas Gerais
Lápis sobre papel - 24,5 x 34 - 1824

Da expedição Langsdorff, Rugendas talvez tenha sido o mais preocupado em retratar a paisagem. A sua passagem por Minas Gerais rendeu diversos estudos em lápis e aquarelas, com especial destaque para as muitas cenas colhidas na região de Barbacena, Ouro Preto, São João Del Rey, Sabará, até regiões como a Serra do Caraça e muitas fazendas que se formavam nessas localidades. Todas essas preciosidades se encontram hoje expostas nos museus da Academia de Ciências da Rússia, em São Petersburgo.
Não só por aqui, mas em quase todo o mundo ocidental, o século XIX atravessou um período de rupturas e experiências, da arte acadêmica com narrativa histórica cedendo lugar para temas mais realistas, naturalistas, culminando finalmente; em países mais abertos às novidades; com o surgir do Impressionismo e suas tardias variações.


GUIGNARD - Sabará
Óleo sobre tela - 38 x 47 - 1950 - Coleção particular

INIMÁ DE PAULA - Paisagem de Barbacena
Óleo sobre tela - 82 x 100 - 1982

SÉRGIO TELLES - Praça Tiradentes, Ouro Preto
Óleo sobre tela - 80 x 100 - 1993

Não tivemos Impressionismo no Brasil, pelo menos no período em que ele aconteceu em outras partes do mundo. Alguns artistas, que presenciaram o movimento na Europa quando ele aconteceu, chegaram por aqui com tendências impressionistas. Artur Timóteo da Costa, Henrique Cavaleiro e Eliseu Visconti foram os que fizeram nossos primeiros ensaios do movimento impressionista, mesclando adereços nouveau aos seus trabalhos.
De igual importância na formação dos artistas de nossa terra, foi a passagem por aqui dos irmãos Grimm, que mesmo ainda fiéis ao estilo acadêmico, já saíam a campo e incentivavam nossos jovens aprendizes no exercício em plein air. Não foram poucos os que saciaram os conhecimentos nesses ensinos: Batista da Costa, Castagneto, Nicolas Vinet, Antônio Parreiras, Hipólito Caron, Vasquez, Facchinetti... Os ecos de tal ensino produziram ótimos paisagistas por aqui, e depois da virada do século XIX para o XX, quando esse tema já era recebido com menos reservas, muitos centros do país já produziam suas próprias escolas regionais e desenvolviam temáticas mais personalizadas.

TÚLIO MUGNAINI - Ouro Preto
Óleo sobre cartão - 24 x 33

Como a prática da pintura em plein air se espalhou pelo início do século XX, Minas foi positivamente favorecida por tal iniciativa. Alguns nomes, já pouco lembrados e quase esquecidos, representaram o estado nesse período: Genesco Murta, Benedito Luizi e Osvaldo Teixeira. Vários outros artistas, de diferentes estados, também representaram Minas em suas composições. Todos já apresentavam uma pincelada solta, deliberadamente desligada da arte acadêmica rigorosa, que já perdia força. Norfini e Túlio Mugnaini abriram caminhos para esses “estrangeiros”. Mas foi com José Wasth Rodrigues, que a temática mineira ganhou visão nacional. As suas muitas aquarelas e bicos de pena, que depois se transformaram em óleos, o deixaram conhecido como o mais nacionalista dos pintores. Pela primeira vez, alguém fazia e expunha Minas com tanto empenho. Lugares nunca antes visitados por nenhum outro artista, tornaram tema corrente de sua obra: Caeté, Campanha, Barbacena, Catas Altas, Congonhas do Campo, além das já badaladas cidades do circuito histórico mineiro, com ênfase para Ouro Preto, Mariana, São João Del Rey e Tiradentes.

JOSÉ WASTH RODRIGUES - Paisagem de Minas
Óleo sobre madeira - 44 x 59 - 1932

Um fato curioso, e importante de relatar, é que no século XX muitos estilos se desenvolveram em paralelo, não só aqui, mas em diversas partes do mundo. Após os adventos da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, vários modernistas mineiros entraram em cena. Influenciados pelos experimentos pós-impressionistas, expressionistas e modernistas europeus, algumas figuras se destacaram e merecem o nosso maior respeito. Inimá de Paula se identificou com um fauvismo tropical, que em nada deve às suas inspirações francesas. Guignard, que mesmo não sendo mineiro de nascença, incorporou a mineirice e fez dela o estandarte maior de seu trabalho. Ouro Preto foi o seu palco principal e produziu um vasto repertório com temas do estado e ainda formou vários alunos e discípulos, a destacar Amílcar de Castro, Farnese de Andrade, Yara Tupinambá e Lygia Clark. Outros artistas que desenvolveram o tema mineiro no pós-guerra, também deixaram grandes contribuições: Carlos Scliar, Brecheret, Ceschiatti, até nomes mais atuais como Bracher e Sérgio Telles. Todos com os olhos atentos aos movimentos mundiais, mas com a temática sempre buscando representar Minas e o que viveram.

EDGAR WALTER - Lavadeiras
Óleo sobre tela

                                      
EDGAR WALTER - Amanhecer em Ouro Preto e
Estrada com carro de boi
Óleo sobre tela

A pintura paisagística acadêmica, no entanto, só veio a conhecer um representante influente, nas hábeis mãos de Edgar Walter. Envolvido com amigos como Alberto Braga, Benedito Luizi e Sebastão Fonseca, foi produzindo discípulos e disseminando um estilo mineiro de fazer paisagens. Não é exagero dizer que talvez seja um dos movimentos de maior identidade com o estado, ainda que seus artistas tenham recebido perceptível influência da pintura naturalista e realista da França e da Itália do século XIX. Mas o movimento ganhou identidade própria. Encantado e declaradamente admirador da paisagem mineira, Edgar arrebatou um grande número de seguidores, e até hoje a influência de sua obra é um ponto marcante no paisagismo mineiro.

JÉSUS RAMOS - Paisagem com bambu e beira de rio
Óleo sobre tela

TÚLIO DIAS - Paisagem com animais
Óleo sobre tela - 90 x 150 - 2011

JOSÉ ROSÁRIO - Vista de Diamantina
Óleo sobre tela - 70 x 100 - 2004

Mesmo que a paisagem em Edgar Walter tenha ainda uma tendência acadêmica, a luz já exerce um fator predominante em sua composição, fato que vem estimular em seus seguidores, caminhos mais contemporâneos, com linguagens mais ousadas que muito lembram o Impressionismo. Temos vários representantes nesse sentido: Luiz Pinto, João Ornelas, João Bosco Campos, Mauro Ferreira, Jésus Ramos, Túlio Dias, Milton Passos, Hilton Costa, Elias Lyon. Cláudio Vinícius ainda mantém uma linguagem mais acadêmica, mas com um frescor que se renova ano após ano, praticando uma pintura isenta de rótulos e estigmas. Wilson Vicente, Helvécio Morais e Rubens Vargas também seguem essa tendência. Todos os nomes da atual cena vêem neles referências muito seguras, e em seus encalços vem artistas como José Ricardo, Anderson Conde e um grande representante da mais nova geração, Vinícius Silva. São todos minhas orgulhosas referências e atualmente alguns deles se tornando grandes amigos.

HELVÉCIO MORAIS - Luz da manhã
Óleo sobre tela

WILSON VICENTE - Cargueiros
Acrílica sobre tela - 60 x 80 - 2011

VINÍCIUS SILVA - Ipê na serra
Óleo sobre tela - 40 x 50

O cenário mineiro continuará encantando aos que são daqui e aos que por aqui se aventuram um dia. Seja no mistério de cada curva de estrada, no sereno frio de cada cachoeira, ou na ladeira de cada casario. Passam os anos, mas sobre os palcos daqui, a vida continua.