domingo, 14 de maio de 2017

A POESIA QUE VEM DO INFINITO

VINCENT VAN GOGH - Noite estrelada
Óleo sobre tela - 73,7 x 92,1 - 1889 - Museu de Arte Moderna, Nova York

Uma das recordações da infância que não me sai da cabeça é, nas noites de verão, deitar num gramado que havia lateral à antiga casa, e ficar observando as estrelas. O brilho delas ainda não tinha a concorrência ferrenha das luzes da cidade e vez ou outra, vaga-lumes davam a ideia de que as mesmas haviam vindo dançar na terra. O olhar curioso do que o adolescente via, acabou encontrando muitas respostas nos livros que eu lia. Descobrir, por exemplo, porque as estrelas parecem se agrupar numa longa faixa que atravessava todo o céu visível e saber que isso era nada mais que o perfil de nossa galáxia. Como ela tem a forma espiral achatada, foi fantástico entender o que os antigos denominavam como Via-láctea, ou um longo caminho de estrelas, que nas noites mais limpas, lembram mesmo um caminho de leite. Ficava também à espera de que algo riscasse o céu, seja uma estrela cadente ou algo parecido. Mas, nada mais marcante foi entender que quando olhamos para o céu, olhamos para o passado. Olhar para as estrelas talvez seja a única atividade que une o presente e o passado. Na fala poética de um amigo meu, “as estrelas são mentiras de luz”. É que muitas estrelas estão a bilhões e bilhões de quilômetros e algumas até já se extinguiram, mas a sua luz ainda continua viajando pelo espaço, até que cesse o seu encontro conosco, porque a luz é a única matéria que não se perde com o tempo. Isso deu um nó na cabeça dos homens mais estudiosos que já existiram sobre a face da terra e continua a alimentar a dúvida de tantos outros curiosos ainda hoje.

JEAN-BAPTISTE-CAMILLE COROT - A estrela da noite - Óleo sobre tela - 76,5 x 97

NOAH FLORES - Luar do passado - Óleo sobre tela - 20 x 16 pol - 2010

Quer sejamos religiosos ou não, nos momentos de maior introspecção, é para os céus que erguemos os olhos. E é lá que procuramos encontrar todas nossas respostas. Entendendo um pouco da imensa vastidão do espaço, passamos a compreender a imensa vastidão que há em nós, porque tudo que existe é infinito, em todas as direções. Já falei sobre esse tema na matéria A DANÇA DAS ESFERAS. Quando se entende e aceita isso, as dúvidas se tornam desnecessárias. Não há necessidade de sondar o infinito, ele nunca mostrará suas fronteiras. Muitos, antes de mim, já lançaram seu olhar contemplativo para o universo. Para aguçar suas dúvidas ou apenas para se deleitar com a beleza incomparável de uma noite estrelada ou de um belo entardecer. É sobre alguns desses, que venho falar nessa matéria, quer sejam cientistas que nos trouxeram a luz para novos olhares, ou artistas que emprestaram seu gênio imaginativo e poético. Que possamos aprender e sentir um pouco do que eles nos ensinaram e sentiram.

FELIX PARRA
Galileu demonstrando novas teorias astronômicas na Universidade de Pádua
Óleo sobre tela - 1873

JOHANNES WEERMEER - O astrônomo - Óleo sobre tela - 50 x 45 - 1668

Principalmente durante e depois do Renascimento, a ciência se mostrou como uma forte opositora aos ensinamentos puramente religiosos, não que apenas quisesse ser uma adversária, mas porque muitas das experiências que se mostravam evidentes à partir da observação de vários estudiosos, lançaram por terra muitos dogmas e trouxeram novas explicações para o mundo visível e palpável. E nada mais respeitado naqueles tempos, e ao mesmo tempo criticado e perseguido, do que o astrônomo. Aquele ser enigmático, que mirava o céu com suas lunetas e telescópios e achava explicações para o que as mentes comuns ainda não entendiam, é o símbolo do momento revolucionário que começou no Renascimento e foi até a Revolução Industrial. Foram muitos os astrônomos que contribuíram com suas parcelas de saber ao que hoje conhecemos sobre o universo que nos cerca. Também foram muitos os artistas que se encantaram com toda essa narrativa e as eternizaram em suas obras. Essa fascinante viagem da observação do infinito começou com Eratóstenes, mais de 200 anos antes de Cristo, quando o mesmo conseguiu afirmar e provar que a Terra erra redonda e não plana. Mas, foi somente à partir dos anos 1400, que as coisas começaram mesmo a esquentar nessa área. Nicolau Copérnico, o pai da astronomia moderna, quem teve a ousadia de afirmar e provar que a Terra girava em torno do Sol. Pela audácia de tirar o homem do centro do universo, ele foi considerado um herege e excomungado pela Igreja. Astrônomos como Kepler, foram de fundamental importância na continuação de estudos anteriores a ele. Foi ele quem descobriu que os planetas giram em torno do Sol em elipses e não círculos. Seus cálculos foram tão precisos, que mesmo até hoje são empregados seus métodos no estudo do sistema solar. Galileu talvez seja uma das figuras mais carismáticas entre eles. Foi ele quem aperfeiçoou os telescópios existentes e permitiu olhar mais longe, onde os olhares ainda não haviam alcançado. Descobridor dos satélites de Júpiter e dos anéis de Saturno, também foi mantido em prisão domiciliar, ao final de sua vida, por defender as ideias de Kepler.
Quando a observação visível já não era mais suficiente para explicar as maravilhas do universo, eis que surgem outros estudiosos, os físicos. Usando a matemática como a ferramenta principal de suas teorias, gênios como Newton, Huygens, Einstein, Hubble e mais atualmente, Hawking, trouxeram inúmeras contribuições para a ciência atual e continuam desafiando os estudiosos desses tempos com suas propostas e leis, muitas delas ainda não comprovadas.

IGNAZ RAFFALT - Por de sol - Óleo sobre painel - 42 x 52,5

ROBERT JAMES RACUNDA - Raccoon saloon noturne - Óleo sobre tela - 48 x 60 pol

Sinto tentado em explicar somente um pouquinho, a beleza de perceber o tamanho de nossa pequenez. A luz tem a velocidade de 300 mil metros por segundo. Isso é de fundamental importância no campo da astronomia, porque os espaços são tão grandes, que é impossível medir as distâncias em quilômetros ou metros. O Sol, por exemplo, está a 150 milhões de quilômetros da Terra. É uma distância que não conseguimos conceber, um espaço gigantesco. Mas, quando dizemos que ele está a apenas 8 minutos/luz de nosso planeta, começamos a entender o quanto a luz e sua velocidade se tornam fundamentais para entender essa imensa vastidão do universo. Explicando isso melhor, caso o Sol fosse aceso nesse instante, sua luz demoraria 8 minutos para atingir nosso planeta. Por isso também, quando olhamos para o Sol, olhamos 8 minutos atrasados para sua existência. Agora, imagine 1 hora/luz, o quanto longe isso significaria... Não conseguiu imaginar não é? 1 dia/luz ficaria ainda mais impossível, assim como 1 mês/luz... 1 ano/luz... Inimaginável mesmo é saber que muitas estrelas e galáxias estão a milhões, bilhões de anos/luz de nós. Olhando para elas estamos literalmente observando o passado, pois muitas delas já até extinguiram, mas sua luz ainda continua caminhando pelo espaço. O desafio da ciência moderna é provar que é possível observar a luz que deu origem ao universo, na primeira grande explosão, que intitulam big bang. Mas, isso é especulação e combustível para outras matérias.

MAURITZ FREDERICK HENDRICK DE HAAS - Por de sol na costa da Nova Inglaterra
Óleo sobre tela - 102 x 170,5

O universo infinito continua a nos extasiar com suas belezas. Se tirarmos um tempo para observá-lo, estará sempre lá, com seus mistérios e desafios. Seja numa noite estrelada, ou no final de uma tarde. Um dia desses, a energia elétrica faltou em minha cidade. Era uma noite estrelada e me senti tentado mais uma vez, a fazer aquilo que fazia na infância. Não tenho mais o gramado lateral a minha casa, mas me vi ali, mais uma vez observando as mesmas estrelas de tantos anos antes. Uma estrela cadente cortou o céu e me senti na sua velocidade. Depois de muitos anos, também pude observar aquilo que já nem me lembrava mais, vaga-lumes. Por um breve momento, as estrelas novamente dançavam próximas a mim.

TOM BROWN - A lua e as estrelas - Óleo sobre tela - 8 x 10 pol


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